Da Inquietação.
“Fizeste-nos, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”. Com esta frase, Santo Agostinho fala de um sentimento natural em todos os homens: a inquietação. Esta inquietação sempre leva o homem a procurar algo — e muitas vezes o algo errado.
Esta inquietação parte da insuficiência dos bens criados para nossa beatitude (ST I-II q.2) pois, como bem explica o doutor angélico, consiste a beatitude na visão da essência divina (ST I-II q. 3 a. 8). Isto acontece por dois motivos: i) uma pessoa só é feliz quando não lhe falta mais nada para desejar ou procurar ii) o intelecto só se realiza quando conhece a essência (ou quididade) das coisas. Veja bem, sabemos que Deus existe pela criação, efeito de sua essência, mas só conhecemos sua essência quando nosso intelecto se unir a Ele.
Vemos esta insuficiência dos bens na vida, por exemplo, de Santo Inácio de Loyola, ou mesmo na do grande Santo Agostinho: eles tinham tudo menos a alegria. Vede Santo Antão: deu todos os seus bens para viver no deserto.
Todos desejam o bem (por conseguinte desejam a beatitude), nos explica S. Tomás. Para os animais, que têm alma mortal, o sentir prazer dita se algo é bom ou não, isso é perfeito para eles, que não tem vida pós-morte. Não, porém, serve para nós, pois o Sumo Bem — bem sabemos — é Deus. Esta confusão, justamente, entre o que é bom e o que é ruim gera a dita inquietação.
Ora, a inquietação não é só uma: ela pode mudar com base em sua causa ou efeito. Três são as principais inquietudes: a teótica, a cega e a ruptiva.
A Teótica é a mais elevada, própria dos santos. É a mais pura e suave inquietação e consiste no desejo de ver Deus. Ela que moveu São Paulo a dizer “Desejo partir e estar com Cristo” (Fl 1:23).
A inquietação cega parte daquele desejo pelo Bem Supremo que a vontade do homem tem (ST I-II q.8 a.1). A inquietação é cega quando o homem não sabe o motivo de sua inquietude; normalmente ele buscará a resposta nos bens materiais em geral. Ele não se sentirá cheio e achará que isso é normal.
Por último temos a inquietação ruptiva: ao contrário da cega, ela sabe qual bem deve almejar; ao contrário da teótica, ela não dá bons frutos. Esta inquietação não parte de um mau desejo, parte, porém, do desejo de um bem (não o Supremo), mas é infectada por algum vício (como a ira, a desordem) e seus frutos são maus. O heresiarca Martinho Lutero foi movido por qualquer desejo justo de reformar a Igreja causou a destruição que causou por seus vícios, ao contrário de São Francisco.
“Fizeste-nos Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”. Com esta afirmação Santo Agostinho não cita apenas o problema, ele nos dá, ademais, a solução — Deus.
